
Nesses últimos 15 dias aprendi o quanto a vida vale. Ou talvez o quanto vale a vida, nada. Estamos vivos e logo não sabemos o que será do amanhã. Ver pessoas morrendo aos poucos, tentando viver cada segundo que lhes restam. Uma agonia terrível no olhar e a fala enrolada suplicando por um tantinho a mais dos dias que maltrataram cada centímetro do corpo. A insistência das mãos e o espírito calejado pelas dores prostradas n'alma. Me entristeceu profundamente ver alguns de seus últimos segundos de vida e não poder fazer nada para acalentar sua cabeça tão contraditória com as histórias vividas. As madrugadas sem fim, em que os olhos lutavam para descansar para que no dia seguinte pudessem ver os rostos que tanto negou. Os cuidados para que nada mais lhe causasse dor, o frio congelando os pés e por vezes as mãos. O último banho em que eu vi a sua força e a necessidade de um corpo limpo, leve de qualquer pesadelo da vida real. O café da manhã que insistentemente você dizia que estava tão bom, como se fosse o último de sua vida. Olhar para sua filha e descobrir que o cabelo estava branco, "você está velha", ouvi com voz que aos poucos foi se calando.Realmente, foi seu último dia... Retroceder alguns passos, lembrar dos dias de chuva, das crianças e da velhice que chegou sem nada dizer, apenas rompendo a certeza da vida. Agora para mim faz sentido quando ouço as pessoas dizerem que jamais esquecem, e que da vida nada levamos. Guardar amarguras e alguns amores mal vividos faz de nós peso morto, deixando de viver as belas coisas que a vida oferece. Assim, despedi-me de você, Vovó para que pudesse seguir um caminho sem torturas do próprio corpo... Quem sabe assim aprenderei a vida de uma forma diferente.
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