eu percebo que talvez as ruas tenham mudado de lugar
em consequência disso ando perdida num mundo que era tão meu
e os outros atentamente seguem meus passos
como se no retorno pudessem prever o que nunca ninguém descobriu
suscetível, entregue a qualquer segredo que poderia haver
se nesta vida nada se perde
onde foram parar as bolhas de sabão?
brincadeira de criança que agride os olhos
e todas as noites antes de dormir
aconselha chorar para que o cisco saia e não cause mais estrago do que a vermelhidão da noite passada
ele a trouxe de volta
e aos poucos esquecemos do perigo existente
achamos as feridas espalhadas
uma a uma tornam a sangrar
no desespero acabamos abrindo mais o que há pouco tinha quase cicatrzado
e nessa angústia sem fim, nos mudamos para perto do mar
quando as chuvas retornarem
levarão muito de nossas lembranças
um barco de papel à luz de velas
quem sabe assim ele traga o que se perdeu em meio à água salgada
frágil, flutuando se aproxima da areia
quase irreconhecível
não fosse o desejo de tê-lo novamente
à deriva, esqueço que as ruas talvez tenham mudado de lugar
