quinta-feira, junho 26, 2008

I Hate The Words


Eu odeio as palavras!
Elas ferem minha alma.
Elas são objetos cortantes que sem eu perceber me atacam de uma forma que...
Eu odeio as palavras!
Elas contam histórias e fazem fofocas.
Elas são disfarçadas de ódio.
Elas mentem, se entregam.
Eu odeio as palavras!
Elas voltam ao passado.
Elas me deixam feliz.
E quando menos espero, chegam de mansinho e ofendem o coração.

Sabe, esses dias eu saí. Fui ao cinema. Ele, o filme, não era tão bom. Foi a impressão (a primeira) que tive, ele dizia coisas. Pensei que o silêncio iria ferir mais que as palavras. Engano meu! As palavras vieram de tal maneira que hoje estou tentando não pensar nelas.

Elas, as palavras, tem peso.
Sentido, sentimento...
As palavras são traiçoeiras.
Elas fazem meu cérebro não pensar.
Elas são maquiavélicas.
Irônicas.
Sarcásticas.
Eu brinco com as palavras para ver até onde elas são capazes de me fazer mal.
Eu choro palavras.
Delas brotam água imunda de podres pensamentos, o mundo.
Eu realmente odeio as palavras.
Eu não entendo as palavras.
Elas me contradizem.
Eu me refiro as palavras.
Àquelas que não sabem calar quando é necessário e gritam ao mundo sua distância.
As palavras têm olhos.
Elas falam.
Conseguem esconder o amor.
Eu espero por palavras.
Mesmo sofrendo, elas são um vício.
E quando bate a abstinência, eu recorro as palavras...
Eu odeio as palavras por elas serem malvadas.
Eu escrevos com palavras o céu num vermelho estranho, desbotado.
É inverno.
Nesse tempo eu mais odeio as palavras.

quarta-feira, junho 25, 2008

Contra

Eu apresento a página branca.

Contra:
Burocratas travestidos de poetas

Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê

água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.


Eu apresento a página branca.


A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.
Contra a água.


Arnaldo Antunes in Tudos

terça-feira, junho 17, 2008

convite


Sexta-feira de sol nublado. Há dias não se sentia bem. Seus pés gélidos e o carinho do vento arrepiava seu sossego. Deitou-se na soleira da calçada resquícios de sol iluminavam a cavidade toráxica aberta. Nela jorravam rios de pétalas vermelhas pelo tempo. Passados alguns segundos encerrava-se o dia. Ancorando no horizonte nuvens de acontecimentos que brotavam do solo. E se os olhos firmassem mais um segundo. Oscilavam pensamentos. Entre a boca que fede e o murmúrio da vida rasgante. Esgueirando-se pelos cantos das paredes, lado de fora seguiu alimentando a morte pela vida descolada do peito. Rapidamente seguia numa tentativa de não ser vista.

quinta-feira, junho 12, 2008

Dia 12 de junho


Con la vista sobre el mar
Busca entre las olas una señal
Algo que le ayude a olvidar
La verdad
Toda una vida de lágrimas
Cede a la locura y luego calla
Por amor a un dia
Que jamás volverá
Cuando la rosa muera
Calmará sus ansias en letras vanas
Por amor a un dia
Que jamás volverá
(With her eyes fixed on the sea
She looks for a sign among the waves
Something to make her forget the truth
An entire life filled with tears
She surrenders to madness, then goes quiet
For the love of a day
That will never come back
When the rose dies
She’ll find peace in those useless words
For the love of a day
That will never come back)...

Stream of Passion

domingo, junho 08, 2008

aversão

Foi a inversão dos dias...
Pimenta!
Inverti os dias...
Noite!
Os dias se inverteram...
No escuro!
Sua presença...
Foi a inversão dos dias!
Vermelho...
Na versão dos dias...
Perfume!
Foi o avesso dos dias...
Sonhos!
Eu quis o contrário dos dias...
Chocolate!
Se transformou na inversão dos dias...
Morte!
Lembranças...
Era a inversão do vento!
Hoje...
É a inversão do amanhã...
O amanhã...
É o verdadeiro tarde demais...
No verso dos dias!

segunda-feira, junho 02, 2008

Seja doador!


Procura-se sangue do tipo A Negativo!
Este sangue será bombeado por um coração triste, cansado.
Trata-se de lama ensanguentada de outros sentimentos.
Agora no desespero de que tudo se transforme, procura-se sangue do tipo A Negativo.
Para que percorra as veias estreitas de um canal que foi desonrado pelo oxigênio transportado.
Procura-se sangue do tipo A Negativo para preencher espaços num cérebro confuso que está a perder seus sentidos.
Procura-se sangue do tipo A Negativo para colorir uma pele empaledicida, desbotada por sofrimentos.
Procurase-se sangue do tipo A Negativo para fazer um pacto nos redores da boca que cala.
Procura-se sangue do tipo A Negativo para escorrer num punhal de prata.
Procura-se sangue do tipo A Negativo para regar flores brancas e tingi-las de negro.
Procura-se sangue do tipo A Negativo para refletir o sol no espelho.
Rubro que se põe a toda hora.
Da dor, doa-se sangue do tipo A Negativo!