A questão do jogo seria o assumir-se em três palavras. Porém, hoje em dia assumir-se se tornou algo tão estranho e sórdido que prefiro manter o silêncio sobre isso.
Ah! Você recebeu uma carta de amor, a menina mais feia da escola ama você.
É... Eu vi, todos riem pela escolha que ela fez, eu é que não vou fazer nada quanto a isso. O amor é bobo mesmo, escolhe pessoas erradas em momentos errados da vida.
Você fica tirando sarro e tem bigode.
Escute! Cale a boca, que o que te resta é uma menina de mau jeito no andar...
Ainda bem que nessa vida alguém se interessa por mim, e você?
Mesmo... Temos a noite toda para dormir sem preocupação e esconder que não tomei banho, senão a mãe briga comigo.
Pela manhã, a professora vai nos ensaiar para dançar quadrilha, se eu tiver sorte quem sabe eu dance com a menina mais bonita da sala. Eu cresci tão depressa que nem pareço ter 13 anos.
À tarde quando eu chegar em casa, não quero falar com ninguém, é bom esconder as cartas de amor.
Crianças.
Talvez um dia eu cresça mais um pouquinho.
Vieram os invernos e as primaveras.
Não passei alguns verões e nem outonos, as praias lotadas.
Assisti a alguns filmes, desci montanhas de parques de diversão, busquei alguns olhos a mais, fui para faculdade.
Trabalho.
Tive algumas namoradas. Li muitos livros e não sei que sentido tem o amor.
Tenho quase trinta anos, sou duas caras, procuro mais do que tudo ser amado...
O jogo da vida é este: iludi-me. E o que me resta é assumir a vida, como minha.
Nenhuma carta de amor, nenhuma companhia.
Nenhuma menina feia, escondida no tempo que volto a encontrá-la.
É como abrir uma caixa de presente e descobrir que ela faleceu. Com a primeira doença que cegou seus olhos.
Quatro anos, dois meses e quinze dias.
Não era da minha importância, o amor era dela.
O que eu não imaginava que a infância traria de volta. Ignorei cada segundo de sua existência.
A existência que deixei à companhia do meu melhor amigo no ponto de ônibus.
A Luh que tinha olhos azuis, seguida da Rafa dona de seus filhos.
A menina que mudava a cor dos cabelos.
As noites...
Um tempo na faculdade faziam campanha para doação de sangue, não tive paciência de doar.
O Marcos me contou o quanto comentavam da menina que jurava amor eterno. Não tive tempo de tentar conhecer esse sentimento, agora me vem uma dor insuportável.
O caminho que faço é o inverso de casa.
Tentando encontrar o sentido de viver, a princesa Diana. Deusa da lua, que às vezes me faz chorar... sorrir ao dançar uma bela canção.
Me traz no caminho de casa, aquele que perdi no início do jogo.
Que me assume em três palavras.

